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Odontologia: Profissão de Ilegais

 

Dr. Wolnei Luiz Centenaro
centenaro@pro.via-rs.com.br


Os números não mentem, numa cidade com 130 profissionais, em torno de 12 ilegais atuam diariamente diante de  nossos olhos, ou seja, 10% da população de CD é ilegal. O número parece exagerado, porem é a realidade que se apresenta. Nas cidades onde a fiscalização do CRO é mais intensa, normalmente por dedicação dos Cirurgiões Dentistas da mesma, isto pode ser constatado com facilidade.

 

Após alguns anos dedicando – me a representação do CRO, não por gostar de ser, mas por uma opção de parar de criticar e partir  para ação tenho hoje o nome e o endereço destas pessoas (ilegais) que atuam na mais absoluta tranqüilidade,   numa cidade  com aproximadamente 90.000 habitantes.

 

A situação torna – se ainda mais caótica se levarmos a esta proporção a todo Brasil, chegaremos a um número assustador de ilegais. Escondidos atrás de Código Penal que tudo permite e nada impede, a reprodução desta “raça” aumenta a cada dia. O processo de criação e reprodução é simples: todos os anos formam – se  vários Técnicos em Prótese Dentária, nos mais diversos pontos de ensino do Brasil, alguns com baixíssima qualidade.

 

Após a “formatura”, estes profissionais deveriam trabalhar em laboratórios de próteses como proprietários dos mesmos ou então subordinados a algum outro profissional. Na prática porem o caminho  não é bem este. Sem condições financeiras para montar seus próprios laboratórios de próteses acabam prostituindo – se nas suas habilitações e começam realizar pequenos trabalhos como próteses removíveis e próteses totais  diretamente na boca de algumas pessoas menos informadas e atraídas pelo baixo preço cobrado. Assim começa todo um ciclo de vícios que tem muitos culpados.

Sem dúvida alguma, a idéia de impunidade que paira neste País é sem dúvida alguma o principal responsável, pela prática deste delito, se não vejamos: O exercício ilegal da odontologia  é crime previsto no código penal, passível de pena de 2 a 6 anos de detenção (não reclusão). Se já não bastasse a dificuldade em promover um flagrante deste tipo de delito, a não ser pela boa vontade de alguns policiais, temos que provar a habitualidade de tal delito, ou seja, temos ainda que provar que o sujeito pratica este tipo de crime todos os dias e não eventualmente.

 

Até aí tudo bem, se as leis  estão contra nós, temos que muda-las. Porém de que maneira podemos fazer isto? Certamente ficar criticando Associações, Conselhos e outras entidades representativas da Odontologia não é o melhor  caminho. Temos que esquecer nossas próprias vaidades despir-nos de parte de nossos anseios pessoais, unirmos forças e partirmos para um resgate de valorização da Odontologia. Não existe outra maneira de preservar a Odontologia se não houver leis mais severas  para o exercício ilegal da profissão.

 

Parece – me que limitar o número de abertura de cursos de Odontologia e auxiliar Dentistas brasileiros em Portugal são atitudes que merecem nossa consideração, porém acredito que nossas entidades deveriam pelo menos concentrar  a  mesma quantidade de forças para controlar   a abertura de cursos de Técnicos em Prótese Dentária, atuar  junto à classe política, magistrados etc, para modificar estas leis do código penal  que   hoje são tão brandas. Muitos colegas argumentam que o número de ilegais não é tão grande assim, porem, se sairmos um pouco de nossos consultórios, começarmos tentar combater estas pessoas, certamente chegaremos à conclusão que estes números (10%) poderá ser ainda maior.

Tenho acompanhado os diversos movimentos de entidades tais como o CRO/ABO/APCD etc,  no sentido de tentar manter uma relação mais estreita com parlamentares que tem o poder e a competência de  elaborar leis, que venham de encontro aos anseios da Odontologia, porem,  não vejo nenhum movimento ou campanha no sentido de alterar o Código Penal Brasileiro para que as penas para o exercício ilegal da odontologia não sejam tão brandas e deixem de ser crime afiançável.

 

Este é o ponto crucial, ou seja, o sentido de impunidade, pois sabemos que por mais que o infrator seja considerado culpado, sua pena é transformada em penas alternativas o que deixa estas pessoas muito à vontade para  atuarem na ilegalidade. É preciso mudar esta situação o mais rápido possível, não podemos mais ficar brincando de policia e ladrão com estas pessoas, precisamos que as pessoas responsáveis  por estas entidades usem de suas influências e habilidades políticas  para que a Odontologia deixe de ser a  profissão de ilegais.